Educar e prevenir são as palavras-chave na gestão da diabetes
O Prof. José Luís Medina, presidente da Sociedade Portuguesa de Diabetologia, fala de diabetes e considera que o mais importante conti- nua a ser a prevenção. É igualmente necessário apostar na educação dos doentes, porque só assim se pode evitar um aumento do número de casos de pessoas com diabetes, doença que actualmente afecta um milhão de portugueses. E porque estas são palavras-chave na gestão da doença, são também o mote para o Fórum da Diabetes, promovido pela SPD em Alcochete, a propósito de mais uma edição do Dia Mundial da Diabetes.
NOC’s e austeridade: que pontos de encontro?
José Luís Medina (JLM) – A Sociedade Portuguesa de Diabetologia (SPD), com base nas guidelines da Associação Americana de Diabetes e da Associação Europeia para o Estudo da Diabetes, produziu umas normas adaptadas à realidade portuguesa. Como presidente da SPD são essas as recomendações que sigo. O problema da austeridade é que, de facto, tem que existir maior eficiência, menor desperdício. Não deve haver racionamento, mas sim racionalização. Temos que actuar dentro destas recomendações. Ou seja, não se exclui nenhum antidiabético oral e todos eles têm o seu lugar. Evidentemente, a determinados doentes – por exemplo as pessoas com diabetes tipo 2 com predisposição para hipoglicemia – cujas hipoglicemias podem ser nefastas e ter efeitos prejudiciais à sua saúde, temos que prescrever medicamentos inovadores que não têm efeito no aumento do peso, nem provocam hipoglicemia na mesma intensidade que outros o fazem. Os medicamentos inovadores, como os inibidores da DPP-4, têm tido um grande incremento porque são fármacos mais seguros, dado que dão origem a menos ou nenhumas hipoglicemias e não provocam aumento de peso.
“Os principais lemas recomendados pela
Federação Internacional da Diabetes são
a prevenção e a educação.”
E poupa-se também nos custos?
JLM – Há estudos de natureza farmacoeconómica que demonstram que com a utilização de fármacos inovadores há uma clara diminuição dos internamentos devidos à diabetes.
E menos consequências, como é o caso das amputações?
JLM – No caso das amputações, a diminuição que se tem registado deve-se principalmente ao trabalho dos médicos de Medicina Geral e Familiar e às consultas dedicadas ao Pé Diabético, que têm conseguido fazer o diagnóstico precoce, evitando que situações ao nível do pé, que poderiam evoluir com gravidade, não evoluam para amputação. Embora o número de amputações não seja aceitável, começamos a ver alguns sinais favoráveis, como sejam menos amputações major e menor número global de amputações.
O que considera prioritário no tratamento de um milhão de pessoas com diabetes em Portugal?
JLM – Prioritário é a prevenção. É fundamental que exista uma estratégia de prevenção estruturada e a nível nacional, segundo o Programa Nacional da Diabetes. Há determinadas actividades dirigidas para a prevenção, mas há que tornar a prevenção ainda mais intensiva e persistente. Hoje em dia, até devido à crise económica que o país atravessa, é necessário prevenir a diabetes tipo 2. O que há a fazer? Sobretudo incidir a nossa atenção nos grupos de risco para diabetes tipo 2: pessoas com sobrecarga ponderal, pessoas com antecedentes de diabetes tipo 2, mulheres que tiveram diabetes gestacional, mulheres com filhos cujo peso excede os quatro quilos, pessoas com patologia cardiovascular, pessoas com síndrome do ovário poliquístico, hipertensos, entre outros. Estas pessoas têm que ser objecto de uma atenção muito especial no sentido de criarem condições para reduzirem o peso, praticarem actividade física e comerem de forma saudável, porque ao combatermos a obesidade estamos indirectamente a evitar o aparecimento de mais casos de diabetes tipo 2.
A educação para a prevenção não deveria iniciar-se mais cedo?
JLM – A SPD colabora com o Programa Nacional da Diabetes e a APDP com dois programas importantes com este objectivo: “Restaurantes em movimento pela diabetes” e “Escolas em movimento pela diabetes”. No que diz respeito às escolas, a educação deve começar pelas crianças e adolescentes porque elas são parte interessada e veiculadoras das mensagens aos pais e famílias. Nos restaurantes, o programa começou no Norte – na zona de Matosinhos – e integra a criação, na ementa do estabelecimento, de um prato de peixe e um prato de carne adequados à pessoa com diabetes. A iniciativa já foi implementada em diversos restaurantes de norte a sul do país.
Como vai a SPD comemorar mais um Dia Mundial da Diabetes, que se assinala a 14 de Novembro?
JLM – A Sociedade Portuguesa de Diabetologia vai comemorar esse dia com um Fórum da Diabetes, em Novembro próximo, no Freeport de Alcochete. O Fórum, nos últimos anos, tem tido uma assistência de cerca de 2.000 pessoas de todo o país.
O que é urgente debater? JLM – Os principais lemas recomendados pela Federação Internacional da Diabetes são a prevenção e a educação. São estes temas que vamos debater. Vamos ter um chef de cozinha a confeccionar um prato adequado a quem tem diabetes, vamos contar com um fisiologista do exercício a ensinar que tipos de exercício as pessoas com diabetes podem e devem fazer e vamos igualmente ter uma série de palestras simples e curtas com mensagens importantes.
“A investigação caminha
no sentido de que se faça um diagnóstico
muito precoce”
A cura para a diabetes vai chegar um dia?
JLM – Estou convencido que sim. Sobretudo para a diabetes tipo 1 que é uma doença auto-imune. Investe-se muito dinheiro e a investigação não pára precisamente para evitar esta forma de diabetes. A investigação caminha no sentido de que se faça um diagnóstico muito precoce – ainda numa fase pré-clínica – e portanto que se possa actuar na parte imunológica, evitando que se desenvolvam os processos que desencadeiam o aparecimento da diabetes tipo 1.
O que falha face ao número de casos de pessoas com diabetes por diagnosticar?
JLM – Temos que divulgar cada vez mais os sintomas e sinais precoces da doença, identificar as pessoas em risco e incidir nos conselhos de prevenção. Temos feito campanhas e divulgação à população precisamente para as pessoas ficarem mais alerta e mais atentas ao problema da diabetes.
O aumento do número de casos tem também a ver com o aumento da esperança média de vida?
JLM – Claro que sim. A maior prevalência da diabetes é em pessoas com mais de 60 anos, como indicam os dados do Observatório Nacional da Diabetes, recentemente divulgados.
Também há mais mortes por diabetes?
JLM – A mortalidade intra-hospitalar diminuiu ligeiramente o que quer dizer que há uma atenção particular com este tipo de doentes.
Estamos a tratar as pessoas com diabetes ao nível dos países mais avançados?
JLM – Acho que sim. Por exemplo, podemos não ter uma divulgação tão grande no que diz respeito às bombas infusoras de insulina como nos outros países da Europa, mas estamos ao mesmo nível da Europa no acesso aos tratamentos mais inovadores. O SNS é um serviço de qualidade e de segurança ao nível dos melhores.
Palavra chave para quem já tem diabetes?
JLM – Controlar a glicemia, a hipertensão, a dislipidemia e a tendência trombótica da doença o melhor possível. Cumprir rigorosamente as recomendações médicas, precisamente para evitar complicações graves, sobretudo as mais preocupantes de natureza cardiovascular e da microcirculação (retinopatia, nefropatia e neuropatia). Temos que ser mais incisivos no cumprimento das regras: primeiro começar pelos conselhos de alimentação e actividade física e associar a metformina. Se a metformina não for eficiente, deve associar-se outros fármacos e seguir até à insulina, sem indecisões, tendo em vista o controlo da hiperglicemia o mais cedo possível. Controlar a HTA, a dislipidemia e não esquecer a antiagregação plaquetária.
Palavras-chave para quem não tem ainda a doença?
JLM – Educar e prevenir. Cuidemos da nossa saúde.
Junho 2014