Encarar a prevenção como transversal

Em entrevista à Medinfar Diabetes News, Luís Gardete Correia, presidente da Associação Protectora dos Diabéticos de Portugal (APDP) comenta os dados recentes do Observatório Nacional da Diabetes e salienta que é necessário apostar numa prevenção eficaz, bem estruturada e bem planificada. É que o número de pessoas com Diabetes ultrapassa já um milhão de portugueses.
Nos últimos anos a incidência da Diabetes aumentou 80%. Que dados destaca deste último Diabetes: Factos e Números 2012?
Dr. Luís Gardete Correia (LGC) – Dos dados deste ultimo Observatório Nacional da Diabetes saliento o aumento, nas últimas décadas, do número de pessoas com Diabetes. A Diabetes atinge actualmente um numero superior a um milhão de pessoas (12,7% da população residente em Portugal entre os 20 e os 79 anos de idade), sendo que cerca de 5,5% com doença não diagnosticada. Destaque ainda para o facto de que devido ao processo de envelhecimento da população, cerca de 27% das pessoas entre os 60-79 anos tem Diabetes, o que corresponde já a um terço da população portuguesa.
Ou seja, os números têm vindo a crescer nos últimos anos.
LGC – Sim. Nos últimos dez anos, a incidência da Diabetes em termos gerais registou um aumento de 80%, sendo que em 2011 terão aparecido 65 mil novos casos. No caso dos jovens, há cerca de 3 mil jovens – adolescentes ate aos 19 anos – com Diabetes. O grande impacto é na diabetes tipo 2, em que o número médio de anos perdidos e de 7 anos. Significa isto que por comparação com a população sem Diabetes, um doente diabético que morre antes dos 70 anos tem em média menos 7 anos que os que não tem a doença. O número de óbitos por diabetes mellitus, em Portugal, ronda os 4%.
Estes dados demonstram porém uma melhoria ao nível das consequências graves da doença.
LGC – Sim, embora os internamentos em que a Diabetes surge como diagnóstico associado tenham registado um crescimento. Pneumonias, enfartes do miocárdio, pé diabético ou outras doenças levam a mais internamentos, sobretudo ema ver com as doenças do aparelho circulatório (Enfarte Agudo, do Miocárdio (EAM) ou Acidente Vascular Cerebral (AVC).
Os dias de internamento no caso das pessoas com Diabetes são praticamente o dobro do tempo médio de internamento das pessoas que não tem Diabetes. Mas há de facto menos internamentos por pé diabético e menos amputações major. Isto pode resultar de vários factores: o programa nacional de combate a Diabetes estar a funcionar melhor; a formação das pessoas tem melhorado; há maior capacidade de resposta a nível hospitalar; há melhores consultas de pé diabético e há uma melhor compensação da Diabetes através das armas terapêuticas que temos ao dispor. No entanto, não podemos esquecer que 27% das pessoas que fazem hemodialise estão a faze-lo devido a Diabetes. E que dos novos doentes em hemodialise, 32% são pessoas com Diabetes. Alem das consequências a nível do rim, a Diabetes é responsável por 27% dos AVC’s é quase 31% dos EAM nos portugueses.
“A Diabetes não dá sintomas
e por isso as pessoas não procuram o médico,
o que dificulta o diagnóstico.”
E quanto aos custos com a doença?
LGC – O consumo de medicamentos tem tido um crescimento em número de embalagens e em valores. Em 2011, gastaram-se 200 milhões de euros em medicamentos, dos quais 18 milhões foram pagos pelos doentes e há um aumento muito acentuado do custo médio dos antidiabéticos orais e das insulinas. O valor das tiras de teste mantem-se estável nos últimos dois anos.
Como controlar melhor a doença e, ao mesmo tempo, diagnosticar novos casos?
LGC – A Diabetes não dá sintomas e por isso as pessoas não procuram o médico, o que dificulta o diagnóstico. Temos que ter uma atitude activa perante as pessoas em risco: obesos, familiares com Diabetes, mães com crianças que nascem com mais de quatro quilos, pessoas com infecções de repetição, entre outras pessoas com factor de risco. É neste conjunto de pessoas que vamos encontrar a maioria dos casos não diagnosticados.
Mas há testes que ajudam a detectar o risco?
LGC – Sim, existe um teste de selecção de pessoas de risco – Finrisk – que determina que a partir de um determinado score a pessoa tem um alto risco e portanto é provável que exista uma Diabetes escondida.
Como explica este aumento do número de pessoas com Diabetes?
LGC – Tem sobretudo a ver com a mudança do estilo de vida nas sociedades ocidentais e orientais. As sociedades do fastfood e das bebidas gaseificadas açucaradas. A obesidade está a intimamente ligada a Diabetes na medida em que é um factor desencadeante da doença. Estes números são fruto de uma ma alimentação, do sedentarismo e do envelhecimento da população. As condições económicas também são de pesar.
Há mais Diabetes nas zonas de carência económica porque as pessoas vão procurar alimentos mais calóricos e gordos que são mais saciantes e são também os que nas últimas décadas não tem registado variações de preço. Os alimentos mais saudáveis, como os vegetais, tem sofrido aumentos no preço ao longo das últimas décadas. No entanto, existe a ideia errada de que e mais caro seguir uma alimentação saudável.
Não é verdade. As pessoas só têm e que ser educadas para comer melhor e para saberem fazer as melhores opções.
A Diabetes gestacional também está a crescer?
LGC – Sim. Passou para 4,9% das gravidas acompanhadas no SNS. O aumento pode ter a ver com a obesidade e talvez com o facto de as mulheres estarem a ter os filhos mais tarde.
Como se mede o impacto da diabetes a nível económico?
LGC – Nesta altura, a Diabetes representa em custos directos (custos de internamento, medicamentos, operações, entre outros custos) 0,8% do PIB do pais e cerca de 8% da despesa total com a saúde. E depois há ainda os custos indirectos (ausência ao trabalho, apoio a terceiras pessoas, esperança média de vida mais curta, entre outros) que não se conseguimos contabilizar.
“É necessário “jogar em várias frentes”
porque a Diabetes é uma pandemia e está
a aparecer cada vez mais.”
Face ao cenário actual, a palavra-chave continua a ser prevenção?
LGC – E necessário “jogar em várias frentes” porque a Diabetes é uma pandemia e esta a aparecer cada vez mais. Em termos de prevalência, Portugal esta em segundo lugar logo a seguir à Rússia. Mas também há países ricos com prevalências elevadas como e o caso da Alemanha. É necessário apostar na área da prevenção primária. É necessário gastar dinheiro em programas cujos resultados só são visíveis daqui a 3 ou 4 anos. E preciso encarar a prevenção como transversal a vários ministérios e estruturas (ministérios da agricultura, do comércio, associações empresariais, camaras municipais, etc…). E é fundamental que os programas de prevenção sejam eficazes, bem estruturados e bem planificados. Se prevenirmos a Diabetes e controlarmos bem a doença poupa-se dinheiro.
Junho 2014
