A paixão pelos ralis começou no início da década de 90, tendo-se desenvolvido depois ao volante de um camião. Ao longo dos anos, a actividade que começou por ser um hobby transformou-se numa profissão a tempo inteiro
Começou por ser professora de Geografia para ser hoje piloto de todo-o-terreno. Pelo meio ainda teve tempo para ser autora de manuais escolares, co-autora da BD “Os Portugas no Dakar” e autora do livro “Irina no Master Rali”. Actualmente é a única mulher a correr em rali ao volante de um camião. Elisabete Jacinto conta como tudo aconteceu.
De professora de Geografia a piloto de ralis. Como é que isso aconteceu?
Tudo aconteceu um pouco por acaso. Por volta dos meus 21 anos tirei a carta de carros e de motas, esta última ao mesmo tempo que o meu marido.Comprámos uma mota para os dois, o que levou a que dois anos depois comprássemos outra, ficando cada um com a sua. Nessa época começou a moda dos passeios todo-o-terreno e decidimos experimentar. A minha participação não correu muito bem, mas ficou a vontade de querer continuar. Essa vontade levou-nos a, passado um ano, comprarmos duas motas de todo-o-terreno. Quando um dos nossos amigos anunciou que ia organizar uma prova de competição, a “Grândola 300”, fui desafiada a participar. A minha participação terminou quando caí num dos rios que integravam o percurso e a mota avariou porque não a consegui levantar imediato. Isso em nada diminuiu a minha felicidade por ter participado, pois tinha conseguido ir muito mais longe do que à partida achava ser capaz. A partir dali ficou a paixão.
O facto de ser licenciada em Geografia ajuda de alguma forma a sua actividade como piloto de ralis?
Ajuda a perceber os sítios por onde andamos, mas não a fazer um rali melhor. Pode ajudar, por exemplo, a perceber por que é que o chão em determinado local tem certas ca- racterísticas. Ajuda a perceber os riscos que corremos e os sítios para onde nos deslocamos, mas um rali é bem mais do que isso.
Primeiro as motas, depois os camiões…
Passei das motas para o camião porque cheguei a um ponto em que percebi que nas motas já tinha conseguido fazer tudo a que me tinha proposto. Ao mesmo tempo, as dificuldades iam aparecendo, o que me levou a perceber que não tinha condições de continuar a correr e a fazer progressos. Cheguei a pensar em deixar a competição, mas era um assunto que de certa forma me afligia, porque gosto muito de correr. A decisão de deixar de correr, durou pouco tempo pois levantei logo a questão de “por que não passar a correr de camião”. E foi aí que decidi mudar. Permanecer nas corridas, mas de camião em vez de mota.
Como é ser mulher neste universo maioritariamente masculino? Aliás, hoje é a única mulher a nível mundial a fazer corridas de camião.
Primeiro notamos uma diferença muito grande ao nível físico, pois os homens aguentam muito mais do que nós, o que em muitos aspectos me deixava em desigualdade. Temos uma mais-valia, por exemplo, na concentração, o que me ajudava a ter uma melhor navegação e a conseguir melhores resultados quando corria de mota. O camião veio possibilitar que conseguisse o que não tinha conseguido com a mota, uma vez que, em termos desportivos, é menos físico, apesar de muito violento em termos psicológicos. Apesar de a primeira corrida com camião não ter corrido nada bem, vim de lá com a certeza de que com o camião era muito mais competitiva. Consegui alcançar resultados bastante bons, que nunca havia conseguido com a mota, e isso levou a que me começassem a olhar como uma adversária, o que gera situações diferentes, pois há quem não aceite tão bem o facto de eu ser mulher. Mas também existe um descrédito generalizador. Ainda tenho dificuldade em que me reconheçam como um bom piloto.
Ainda encara as corridas como hobby?
Se me disserem que tenho de deixar de correr fico aflita, pois é algo que não quero que aconteça. Ainda tenho muita vontade de conseguir alcançar bons resultados. Isto não será fácil, pois os meios que tenho não se comparam em nada aos dos meus adversários.
Deduzo então que não seja fácil continuar, pois deve ser muito caro.
A verdade é que o camião tem problemas que a mota não tem. Tudo é à dimensão do camião! Esse facto torna tudo mais difícil, o que me leva a conseguir progressos de forma muito mais lenta.
Como consegue angariar verbas?
No início, com a primeira corrida no Dakar, pedi um empréstimo ao banco, que estive quatro anos a pagar. Depois, fui batendo às portas das grandes empresas nacionais.
Esses apoios e patrocínios são essenciais para continuar no activo?
Sem dúvida. A maior parte das pilotos que corre nesta modalidade tem meios financei- ros próprios que lhes permite subsidiar-se. Há muito poucos pilotos na mesma situação que eu, ou seja, a correr com patrocínios.
É a Elisabete que trata das negociações? Há na mulher desportista uma empresária?
Sim, vou conciliando as duas, mas sou melhor desportista do que mulher de negócios. Não tenho grandes dotes de negociadora nem grande capacidade de me valorizar, o que dificulta. Quando consigo um relacionamento com uma empresa tento trabalhar o melhor possível, dando o meu melhor de forma a convencê-los de que sou uma boa aposta. A minha ligação ao Grupo Medinfar resulta disso. Consegui o patrocínio para o meu segundo Dakar, e o que era só para aquela corrida passou a um patrocínio que consegui manter.
Há uns anos ficou com a imagem muito ligada a determinada marca. Qual o motivo da mudança para o patrocínio actual?
Foi um grande voto de confiança que a empresa me deu e que foi de importância extrema. Desde 1999 que corro como o apoio da Medinfar e ao longo dos anos tenho-me esforçado muito para provar que sou um bom investimento e uma mais-valia para a marca, pois os patrocínios são isso mesmo. A empresa conseguiu uma quota de mercado fabulosa e tenho a certeza de que contribuímos muito para isso, ao dar uma maior visibilidade ao produto, na altura o Trifene. Ao fim de tantos anos com o mesmo produto a empresa decidiu mudar, pois sendo um medicamento havia grandes restrições quanto à publicidade. O Oleoban foi a escolha, tendo sido a minha marca desde 2009. Este ano decidiu-se mudar, e agora corro com a marca Bio-Ritmo, um dos suplementos alimentares que integram o portefólio do Grupo.
Participou no Rali Dakar, em África e na América, no África Race, no Rali de Marrocos e no Rali das Gazelas. Qual o momento que mais orgulho lhe trouxe e o mais difícil?
Em 2000 consegui fazer o Dakar inteiro de mota e foi uma tremenda conquista. Ainda nesse ano ganhei a Taça das Senhoras. Dos momentos bons recordo a primeira vez que ganhei uma especial de camião. Momentos menos bons tenho muitos, como este ano, em que o motor se partiu na segunda etapa.
Em que corridas podemos vê-la este ano?
Em Outubro, num rali em Marrocos, e no final do ano no Africa Race.